sábado, 17 de janeiro de 2009

Regência Coral / Orquestral

ASPECTOS DA REGÊNCIA (01 de fev 2009)
A arte da regência é uma ciência como qualquer outra, utilizada como um meio de fazer arte, no entanto a esta arte são impostas implicações técnicas que devem ser desvendadas e dominadas por todos os candidatos a regentes, não importa que tipo de grupo se predispõe a dirigir. Não há diferença no dirigir um coro, orquestra ou banda. A técnica do dirigir é igual para todos os tipos de grupo, o que muda são os conhecimentos específicos de cada um.O que é a regência? Segundo o maestro Roberto Duarte, dirigir é muito mais que abanar os braços. É acima de tudo saber se relacionar com as pessoas. È lembrar que do outro lado de uma estante de música encontra-se um ser humano, que tem alegrias, tristezas, preocupações e problemas como todos, inclusive o maestro, e que ele deve ser tratado com respeito. O ato de dirigir engloba diversos conhecimentos importantes, como o conhecimento do relacionamento humano, o domínio dos conhecimentos gerais, o domínio dos conhecimentos musicais em geral, o domínio dos conhecimentos específicos da regência e por último o domínio da técnica do gesto. Nenhum destes conhecimentos isolados desempenham sua função dentro do “ser um regente”, mas só a soma do conjunto destes conhecimentos vai contribuir para que o regente se torne um bom regente.O maestro Duarte sugere (os valores apresentados nas porcentagens são fictícios, mas servem como sugestão para a reflexão que se pretende) o seguinte: · 2 % - Gestual · 3 % - Conhecimentos específicos da regência · 15 % - Conhecimentos musicais · 20% - Conhecimentos gerais · 60 % - Conhecimento do relacionamento humano Isto quer dizer que o gesto encontra-se no alto da pirâmide da arte da regência, mas que para que ele aconteça é necessário que na base da pirâmide haja os demais conhecimentos. O ato de dirigir está mais intimamente ligado a como se relaciona o maestro com seus comandados que com o gestual propriamente dito.O gesto tem sua importância na comunicação. Observe esta palavra: Table. O que significa? Como se pronuncia? O significado é um só: table = mesa, mas a pronúncia vai depender do idioma: francês ou inglês. O que desejo mostrar é que cada um tem seus meios de expressão, mesmo que o significado seja o mesmo. Há diversas maneiras de dizer a mesma coisa, dependendo apenas como você a diz. No entanto a linguagem que você usa deve ser compreensível para todos.O gesto tem um padrão universal, que pode variar dependendo do contexto da obra. O gesto não é um símbolo independente, ele está associado ao domínio e conhecimento da partitura, adquirido pelo estudo diário e pela dedicação ao que faz. Dirigir, não é apenas conduzir os elementos melódicos. Alguns maestros se tornam maestros dos primeiros violinos, dos sopranos ou das palhetas solistas. Dirigir é muito mais que dirigir uma linha melódica, com toda a certeza ela é importante, mas nem sempre a regência deverá se ater a linha melódica, visto que algumas linhas melódicas dependem de algum elemento rítmicos ou harmônico, e é aí que o maestro deverá verificar a importância destes elementos: a melodia, ritmo ou harmonia. Só para clarear um pouco mais, muitas vezes a linha melódica depende do bom desempenho de uma passagem rítmica ou de uma passagem harmônica. O maestro se preocupa tanto com o desempenho melódico e esquece de observar o que lhe dá sustentação.O olhar, as mãos, os braços, dedos, enfim o corpo todo deve participar na função da regência e estes não devem ser desperdiçados.A comunicação do maestro é feita por meios não verbais, e por este motivo os sinais devem ser claros, objetivos e precisos. Todo o processo de reger exige do maestro muito estudo e dedicação. O gesto deve ter objetivo claro e possuir uma estratégia bem definida. Tudo o que se faz a mais é desperdício e desvia a atenção podendo induzir ao erro.Todo o processo do gestual, não acontece por acaso. Alguns regentes se preocupam com a marcação de compassos, mas o ato de reger envolve muito mais que marcar compassos. Os músicos não desejam que um maestro marque compassos e sim que dirija a obra. O que desejo mostrar aqui é justamente o que está por trás de uma partitura simples ou complexa. O gesto é portador de uma idéia, de uma frase, de um efeito, de uma dinâmica, de uma passagem ou de um encadeamento harmônico. É pra isso que serve o gestual. Quando marcamos apenas um compasso, estamos nos tornando um metrônomo gigante, que na maioria das vezes não tem qualquer utilidade musical.
Convido a você a acompanhar o meu raciocínio numa abordagem sucinta alguns tópicos, aspectos importantes da regência válidos para todo e qualquer tipo de grupo que necessite de um regente:
a) O poder que temos em nossas mãos ao nos colocarmos frente a um grupo, pode de alguma forma contribuir ou prejudicar a eficiência do trabalho. Como desfrutar dos benefícios da autoridade, sem agredir nossos músicos, e sem prejudicar o resultado de nosso trabalho?
b) A memória e a importância que ela desempenha na direção musical?
c) A percepção do maestro frente aos fatos que se sucedem a cada instante dentro do grupo que dirigimos.
d) O domínio da partitura, a importância de saber a partitura de memória e dominar todo o conteúdo.
e) A batuta, como e porque usar.
f) As técnicas do gestual.
g) Como organizar o ensaio.
a) Poder:
A autoridade do maestro frente ao grupo de trabalho pode ser resumida em dois aspectos:· autoridade pessoal e autoridade técnica. Na regência, a autoridade é o substractum de sua arte, e é como se fosse parte integrante da natureza das coisas, sendo lastreada pelo conhecimento, experiência e competência do maestro. Na atividade humana, raras vezes o poder de um único indivíduo se mostra tão evidente nas exigências de obediência e lealdade. O gestual do maestro é dominador e sua imagem exprime suas intenções e expressões que devem ser seguidas. Exercer a atividade da regência, pressupõe ter virtudes de liderança, poder de comunicação, precisão técnica e senso de autoridade.O regente moderno não tem mais a ascendência autoritária como Karajan, que era chamado de Pontifex Maximus, que usava de mão de ferro para dirigir seus músicos. Hoje o “maestro sugere, não impõe sua vontade”. Bernard Haitink.O maestro Carlo Maria Giuliani, falando sobre a autoridade do maestro: “Não nos sentimos absolutos sobre o podium. Devemos pedir constantemente aos músicos que executem e aos cantores que cantem. Se formos autoritários é para pedir”. Ainda falando sobre o assunto, o maestro ainda comenta: “Entre o maestro e os músicos não deve haver trocas desiguais e que a obediência deve vir da convicção: eu prefiro convencer”. O maestro Pierre Monteaux fala sobre o assunto da seguinte forma: “O maestro nunca deve faltar com o respeito aos seus músicos, que tem o direito a ter direitos”. Há um provérbio italiano que sintetiza essas afirmações: “Tu recebes o que me destes”. O autoritarismo absoluto não existe mais, mantendo-se o respeito, o diálogo, sem abdicar de nosso senso de perfeição e musicalidade.
b) Memória:
A memória é a possibilidade do indivíduo de disponibilizar conhecimentos adquiridos sem o auxílio de referências escritas.Nesse sentido a memorização, segundo a psicologia, passa por três etapas principais:a. a aquisição do conhecimentob. tratamento da informação.
c) A lembrança, quando a informação é transferida para o momento do uso. O maestro Von Bülow sempre dirigia de memória e exigia que seus músicos o fizessem. Ele sempre afirmava que: “mais vale a pena ter a partitura na cabeça, que ter a cabeça na partitura”. O século XX tornou-se célebre que os grandes maestros dirijam seus concertos de memória, com a ascensão do maestro virtuose. Muitos regentes gostam de dirigir seus concertos totalmente de memória e outros, como Mendelssohn-Bartholdy (1809-1847), usava a partitura apenas como apoio, não necessitando utilizar o texto para toda a direção. No entanto, alguns regentes podem possuir lapsos, déficits ou perturbações de memória que o impedem de dirigir sem a partitura. Muitos consideram que dirigir de memória é um ato de exibicionismo e outros consideram que é um ato que demonstra o talento do maestro, no entanto não há uma unanimidade sobre o assunto. Cabe ao maestro considerar os riscos e os caprichos de dirigir com ou sem a partitura durante uma apresentação pública. De qualquer forma conhecer a obra de memória, com ou sem a partitura na sua frente no ato do espetáculo, é extremamente importante para o bom desempenho do maestro. Quando o uso da partitura for necessário, deve ser utilizada somente como apoio para eventuais consultas durante a execução. O trabalho de memorização do regente é fruto de paciente e demorado estudo e perseverança ao trabalho anterior ao primeiro ensaio, ou seja o domínio absoluto da partitura. A prática contribuirá para o desenvolvimento artístico, contribuindo dessa forma para o domínio do gesto, da expressão, da comunicação e da concentração, ou seja, o regente sabendo a partitura de memória, com ou sem ela à sua frente, passará a dominar os aspectos visuais, táteis, musculares analíticos, rítmicos e auditivos de sua música.
c) Percepção:
A percepção do músico de um conjunto instrumental ou vocal, que está sempre em estado receptivo é bem complexa, determinada pela associação do senso de acuidade visual, estabelecida por sinais gerados pela fisionomia, gestual e atitudes do maestro, somados à percepção auditiva do coletivo, sem deixar de lado as informações da partitura, que este transformará em linguagem musical, na elaboração do senso musical coletivo. Esse processo de percepção começa a partir do momento que se determina a afinação do conjunto, quando o maestro ergue os braços, chamando a atenção para o início do processo sonoro musical, seguido pelo principal sinal que se chama levare, do “i” ou seja, a preparação para a emissão do primeiro som do coletivo. A partir deste processo, o músico instrumentista ou cantor inicia a sua postura de receptáculo das informações. Todos os sentidos estão voltados para o maestro, e respondem as suas indicações, entrando num grau máximo de concentração. O gesto deve conter todas as informações necessárias para a interpretação, entre muitas estão as seguintes:
a. Fazer todo o efetivo musical tocar ou cantar junto.
b. Indicar o tempo.
c. Indicar as principais entradas.
d. Indicar os andamentos.
e. Indicar as dinâmicas.
f. Controle dos planos sonoros entre os naipes.
g. Indicar acelerandos e ritardandos.
h. Qualidade sonora do instrumento ou cantor.
i. Indicações e saída de fermatas.
j. Dirigir os fraseados.
k. Linhas melódicas.
l. Manter a fidelidade na interpretação.
m. Indicar articulações diversas, entre muitas outras indicações.
Ao mesmo tempo em que se pede a concentração dos músicos cantores ou instrumentistas, se faz necessário à mesma concentração do maestro, pois não havendo, pode-se ter a sensação de vazio no podium, sem saber o que fazer podendo provocar um desastre artístico.O maestro que não possui gestos claros, ou que possui gestos tencionados, que não olha para seus conduzidos, marcando apenas os compassos, perde a sua função como maestro, ou seja o músico não sente a necessidade de interagir com ele.
Transcrito de:
EMANUEL MARTINEZ - REGÊNCIA (coro, orquestra e banda)

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